A pretexto ou sob a máscara de uma sátira 'segunda', pelo jogo dialético que a forma dialógica permite e instiga, Diderot compôs, em 'O Sobrinho de Rameau', uma obra-prima da criação ficcional do iluminismo francês, e, mais ainda, um quadro dos mais abrangentes da sociedade não só do século XVIII - dos homens e de suas idéias, do jogo de suas ambições e frustrações na dinâmica coletiva e pessoal, à luz de sua máxima e mínima moralia. Uma e outra, encarnadas no Eu, íntegro até a rigidez virtuosa do seu ideário de filósofo, e no Ele, o artista talentoso, mas não genial, frustrado em sua busca de reconhecimento, que mal disfarça sua inveja em relação aos que alcançam a glória na arte e na vida, expondo os seus defeitos, supostos ou não, como fundamento de seu ceticismo e amoralismo, recortam em positivo e negativo o efeito do ácido crítico que por sua precisa ação corrosiva revela uma gravura transcendente ao seu tempo, ao seu autor e aos seus heróis.
Sobre o autor(a)
Guinsburg, J.
Foi um dos mais proeminentes intelectuais brasileiros dos últimos sessenta anos. Ensaísta, escritor, tradutor e professor autodidata, foi titular da cadeira de Estética Teatral do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – CAC/ECA-USP. Sempre ligado ao mercado editorial, foi um dos fundadores da editora Perspectiva de São Paulo em 1965, da qual tornou-se o editor. À frente dela até a sua morte, construiu ao longo dos anos um dos mais notáveis acervos editoriais do país no campo das humanidades. |